10 de outubro de 2013

Da tradução

Traduzir livros, principalmente do alemão, é às vezes se sentir diante de dois quebra-cabeças simultâneos. O primeiro, já terminado, cabe a mim examinar, contemplar, interiorizar, para reproduzir o que me diz no segundo, já que o meu trabalho é montá-lo. A completude da imagem depende de observar e decifrar cada pecinha original, um fragmento do todo que pode ser grande e óbvio - substantivo, adjetivo, verbo - ou minúsculo, como uma preposição, partícula ou prefixo de verbo, mas cuja ausência ou distorção deixaria um buraco na fotografia final. Devo então encontrar sua pretensa gêmea possível no meu segundo repertório, fuçando uma montanha de peças bagunçadas que tenho nos dicionários e dentro de mim. Ela mostra um mesmo pedaço da foto, mas pode ter formato bem diferente, outro tamanho, outra classe gramatical. Aos meus olhos, ela pode ser esta; aos seus, certamente seria outra. É por isso que esse quebra-cabeça tem mãe. Com minha escolha na mão eu encaro o segundo todo, para montar a mesma imagem, mas com sua própria harmonia, ordem, encaixes e regras. Às vezes uma peça pode servir em diferentes lugares, mas espera um pouco, onde sobrariam menos arestas? E vez ou outra você não encontra uma peça por nada, mas caramba, ela tem que estar em algum lugar... No final chego a duas imagens que se pretendem iguais, mas se você olhar de perto, quanta diferença. Moral da história: parece romântico, poético, lúdico, mas traduzir é um trabalho de formiguinha do cacete.

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