16 de fevereiro de 2013

Sonata para o silêncio

Lembro-me de ter estranhado o silêncio. Um silêncio maior que imenso porque compulsório. Eu não sabia se queria, talvez sequer se o conhecia... O extraterreno sim, aquele das montanhas e penhascos. E o silêncio meditado e premeditado, mas veja bem, assim é fácil. Agora silêncio vida, aí eu quero ver um paulistano se virar. E de repente o silêncio era um abraço quente e interminável.
Janelas milimetricamente vedadas numa cidade com mais árvores que gente. Com mais bicicletas que carros. E o espaço sagrado de cada um. E nas noites, mesmo o som do vidro no galão de coleta era transgressão.
Então eu abria as janelas e tentava ouvir o frio. E esperava a memória viva do bonde passar, o som que me confortava como lembrança de um caos distante. Distante mas tão meu e eu.
Mas um dia, devagar porém num golpe, o silêncio virou casa. E assim também passou a me habitar.
Hoje caos e silêncio sou eu. E agora estou pronta pra me reencontrar.
Porque desde então eu sou caos, silêncio e saudade. E a saudade, dama indecisa, nunca se cansa de trocar de par.

15 de fevereiro de 2013

Anamnese


Sintomas do tempo gago que urge e ruge e foge, transtorno de personalidade, a noite que quer ser dia e o dia que quer ser nada. Logo quando preciso ser três. Tripolaridade transtornada. Mas sonâmbula nos dias, trupicando nas palavras rasas porque não minhas, tateando-as devagar porque a cabeça? Amnesiando por aí. E onde estava mesmo, que me perdi?
Ah, a esquizofrenia dos dias, corre, corre que o tempo pega. Sempre pega. Mas quando tem que voar finge de manco, coitado, manco maníaco, esse mês é a ansiedade, respira direito, tempo, isso aí faz mal. Bronquite? Hipocondríaco, na verdade, acalma que isso me dá palpitação. 
E toda essa suspiração?
Respira e sossega, tempo, que se te endoida a espera é porque o nome disso tudo é paixão. 

14 de fevereiro de 2013

Do eu com rodas


Duas caixas. 
Censuras de 32 quilos.
História com alças e rodas.

Da alma de armários já aprendi.
Mas são apenas duas caixas com rodas.
E tanta bagagem nas gavetas em mim...

13 de fevereiro de 2013

Águas frescas


E aqui vamos nós de novo.
Uma trilha de sensações à frente.
A urgência de transbordares súbitos e olhares despertos.

Elas nunca se ausentaram daqui.
Só têm sido pontes para a voz dos outros.
Agora as quero de volta numa estrada pra dentro de mim.

Palavras: uma ponte de mim para o novo.
Breve, suspensa e lúcida sobre o meu Meno destino.

Minhas boas-vindas com águas frescas nos pés. 
Lá vamos nós de novo.
Nós, o mundo e o meu novo-velho olhar.