28 de outubro de 2013

Da geografia

Já posso pegar as malas, a metade, esse monte de saudade e voltar pra lá? Então o lá será aqui e o aqui será lá, e na nossa peculiar geografia, veremos o ciclo recomeçar...

10 de outubro de 2013

Da tradução

Traduzir livros, principalmente do alemão, é às vezes se sentir diante de dois quebra-cabeças simultâneos. O primeiro, já terminado, cabe a mim examinar, contemplar, interiorizar, para reproduzir o que me diz no segundo, já que o meu trabalho é montá-lo. A completude da imagem depende de observar e decifrar cada pecinha original, um fragmento do todo que pode ser grande e óbvio - substantivo, adjetivo, verbo - ou minúsculo, como uma preposição, partícula ou prefixo de verbo, mas cuja ausência ou distorção deixaria um buraco na fotografia final. Devo então encontrar sua pretensa gêmea possível no meu segundo repertório, fuçando uma montanha de peças bagunçadas que tenho nos dicionários e dentro de mim. Ela mostra um mesmo pedaço da foto, mas pode ter formato bem diferente, outro tamanho, outra classe gramatical. Aos meus olhos, ela pode ser esta; aos seus, certamente seria outra. É por isso que esse quebra-cabeça tem mãe. Com minha escolha na mão eu encaro o segundo todo, para montar a mesma imagem, mas com sua própria harmonia, ordem, encaixes e regras. Às vezes uma peça pode servir em diferentes lugares, mas espera um pouco, onde sobrariam menos arestas? E vez ou outra você não encontra uma peça por nada, mas caramba, ela tem que estar em algum lugar... No final chego a duas imagens que se pretendem iguais, mas se você olhar de perto, quanta diferença. Moral da história: parece romântico, poético, lúdico, mas traduzir é um trabalho de formiguinha do cacete.

16 de fevereiro de 2013

Sonata para o silêncio

Lembro-me de ter estranhado o silêncio. Um silêncio maior que imenso porque compulsório. Eu não sabia se queria, talvez sequer se o conhecia... O extraterreno sim, aquele das montanhas e penhascos. E o silêncio meditado e premeditado, mas veja bem, assim é fácil. Agora silêncio vida, aí eu quero ver um paulistano se virar. E de repente o silêncio era um abraço quente e interminável.
Janelas milimetricamente vedadas numa cidade com mais árvores que gente. Com mais bicicletas que carros. E o espaço sagrado de cada um. E nas noites, mesmo o som do vidro no galão de coleta era transgressão.
Então eu abria as janelas e tentava ouvir o frio. E esperava a memória viva do bonde passar, o som que me confortava como lembrança de um caos distante. Distante mas tão meu e eu.
Mas um dia, devagar porém num golpe, o silêncio virou casa. E assim também passou a me habitar.
Hoje caos e silêncio sou eu. E agora estou pronta pra me reencontrar.
Porque desde então eu sou caos, silêncio e saudade. E a saudade, dama indecisa, nunca se cansa de trocar de par.

15 de fevereiro de 2013

Anamnese


Sintomas do tempo gago que urge e ruge e foge, transtorno de personalidade, a noite que quer ser dia e o dia que quer ser nada. Logo quando preciso ser três. Tripolaridade transtornada. Mas sonâmbula nos dias, trupicando nas palavras rasas porque não minhas, tateando-as devagar porque a cabeça? Amnesiando por aí. E onde estava mesmo, que me perdi?
Ah, a esquizofrenia dos dias, corre, corre que o tempo pega. Sempre pega. Mas quando tem que voar finge de manco, coitado, manco maníaco, esse mês é a ansiedade, respira direito, tempo, isso aí faz mal. Bronquite? Hipocondríaco, na verdade, acalma que isso me dá palpitação. 
E toda essa suspiração?
Respira e sossega, tempo, que se te endoida a espera é porque o nome disso tudo é paixão. 

14 de fevereiro de 2013

Do eu com rodas


Duas caixas. 
Censuras de 32 quilos.
História com alças e rodas.

Da alma de armários já aprendi.
Mas são apenas duas caixas com rodas.
E tanta bagagem nas gavetas em mim...

13 de fevereiro de 2013

Águas frescas


E aqui vamos nós de novo.
Uma trilha de sensações à frente.
A urgência de transbordares súbitos e olhares despertos.

Elas nunca se ausentaram daqui.
Só têm sido pontes para a voz dos outros.
Agora as quero de volta numa estrada pra dentro de mim.

Palavras: uma ponte de mim para o novo.
Breve, suspensa e lúcida sobre o meu Meno destino.

Minhas boas-vindas com águas frescas nos pés. 
Lá vamos nós de novo.
Nós, o mundo e o meu novo-velho olhar.